À esquerda: Capa do Relatório de Sustentabilidade 2014 da Samarco. Fonte: Empresa 
À direita: Vista Aérea do Distrito de Bento Rodrigues devastado pela lama, após o rompimento da barragem da mineradora Samarco em Mariana, MG. Fonte: Estadão

SUSTENTABILIDADE: Desejo X Realidade – Caso Samarco


“O Brasil é um país em que as pessoas acham muito, observam pouco e não medem praticamente nada”.

Fernando Penteado Cardoso (1914- ), presidente da Fundação Agricultura Sustentável.

Segundo Nassim Taleb, o “Cisne Negro” é um acontecimento altamente improvável que reúne três características principais: é imprevisível, produz um enorme impacto e, após sua ocorrência é arquitetada uma explicação que o faz parecer menos aleatório e mais previsível do que aquilo que é na realidade.

Mensagem do Presidente da SAMARCO

“Quando nós definimos nossa Visão 2022, tínhamos clareza da importância desse compromisso e dos inúmeros desafios que teríamos pela frente. Afinal, dobrar o valor da Samarco e torná-la reconhecida por empregados, clientes e sociedade como a melhor do setor representa uma meta e tanto, que só pode ser atingida se combinada com a conformidade em todas as nossas práticas, com a busca pela excelência em tudo o que fazemos e com o crescimento perene e sustentado do negócio.”

Por Luiz Guilherme Dias

Como noticiado pelo O Estado de SP, a empresa de mineração Samarco, responsável pelas barragens de rejeitos que romperam dia 5/Nov/2015, em Mariana (MG), causando destruição e vítimas, aumentou em 9,5 milhões de toneladas ao ano, em 2014, a capacidade de produção de minério de ferro em sua unidade industrial na região. O aumento na produção fez crescer também o volume de rejeitos depositados nas barragens rompidas. Cada tonelada de minério processado gera volume quase igual de rejeitos.

A ampliação decorre da construção de um terceiro concentrador de minérios na unidade de Germano, entre Mariana e Ouro Preto. No ano passado, a produção foi de 25 milhões de toneladas, 15% a mais que no ano anterior. O volume maior de rejeitos foi próximo de 3 milhões de toneladas, atingindo no ano um total de 21,9 milhões de toneladas de materiais arenosos e lamas, resultantes do beneficiamento do minério de ferro. Os dados constam do Relatório Anual de Sustentabilidade 2014, divulgado no site da empresa. O relatório não faz menção a aumento na capacidade desses reservatórios.

Surge daí uma reflexão: até que ponto as declarações de Visão, propostas pelos executivos de uma empresa, que planeja dobrar de valor e ser a melhor do setor em que atua são compatíveis com boas práticas de governança e crescimento sustentável? Analisando o relatório parecia estar tudo “verde”, mas a realidade mostrou o “marrom” da lama que devastou a região, se arrastou até o oceano Atlântico, deixando pelo caminho centenas de vítimas desabrigadas. Como disse uma especialista veterana no tema, a multa de R$250milhões imposta pelo IBAMA à Samarco e destinada ao Tesouro da União “não fará nem cosquinha” se comparada ao prejuízo causado pela empresa.

Em artigo nosso recentemente publicado sob o título “Sustentabilidade: o que falta para assegurar?” fizemos referência à criação do ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) lançado pela BM&FBovespa com o objetivo de ser uma ferramenta para análise comparativa da performance das empresas listadas na Bolsa de Valores sob o aspecto da sustentabilidade corporativa, baseada em eficiência econômica, equilíbrio ambiental, justiça social e governança corporativa. Adicionalmente, segundo a BM&FBovespa, o ISE amplia o entendimento sobre empresas e grupos comprometidos com a sustentabilidade, diferenciando-os em termos de qualidade, nível de compromisso com o desenvolvimento sustentável, equidade, transparência e prestação de contas, natureza do produto, além do desempenho empresarial nas dimensões econômico-financeira, social, ambiental e de mudanças climáticas.

Indagada sobre o caso Samarco cujos donos são Vale e BHP, 50% cada uma, e lembrando que a Vale é a companhia com maior peso no ISE (carteira composta por 50 ações de 40 empresas listadas), a Bolsa respondeu que “para eventuais pedidos de esclarecimentos sobre o ISE, temos um monitoramento diário de crises, conforme divulgado no site. Informou também que o objetivo da iniciativa é a implementação de um processo estruturado de diálogo com as empresas para esclarecimento de questões críticas de sua atuação nas dimensões social, ambiental, econômico-financeira e de governança corporativa que tenham sido veiculadas na grande imprensa, mas os eventuais contatos sobre o ISE feitos às empresas e suas respostas são sigilosos. Como assim “são sigilosos???”. Cadê a transparência, um dos quatro princípios de governança corporativa abençoado pelo IBGC?

Ao mesmo tempo a BM&FBovespa emitiu um comunicado em 19/Nov/2015 que compensou as suas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) de 2014 não passíveis de redução, tornando-se, assim, “carbono neutro” por mais um ano. A iniciativa existe desde em 2013 quando a Bolsa fez as compensações de 2011 e 2012 e desde então o processo de compensação passou a ser anual. Entre os objetivos desta ação, está o de induzir a adoção das melhores práticas de sustentabilidade pelas empresas listadas e o mercado em geral. A ação também está em linha com a Política de Sustentabilidade, da Bolsa – aprovada pelo Conselho de Administração em abril de 2013 – em seu Pilar Ambiental, e concretiza o compromisso com o avanço das iniciativas relacionadas a mudanças climáticas.

Mais uma vez percebemos uma boa intenção, mas ainda muito dissociada da realidade do mundo em que vivemos. Trocando ideias com uma especialista da área, engenheira com mais de 40 anos de meio ambiente, fiquei convencido que este desastre da Samarco parece o espelho da atual gestão ambiental brasileira. As pessoas das mais diversas formações se envolvem com sustentabilidade, o que é bom pelas diferentes narrativas. Só tem um porém: engenheiros e geólogos entendem, por formação, da dinâmica das rochas, dos taludes, de projetos, de fatores de segurança e outras características da suas formações acadêmicas. Na Sociedade do Espetáculo, como diz Vargas Llosa, a boa técnica e a ciência foram substituídas por eficientes ferramentas analíticas, belas peças de comunicação, relatórios pictóricos. Mas sem boa fundação a casa cai, como caiu em Mariana.

Ao que tudo indica a Samarco é bem intencionada, mas ficou na superfície! Economia deprimida = cortes de custos (sustentabilidade ou é acessória ou é custo) = cortes em saúde, segurança ocupacional e meio ambiente. O estrago pode comprometer a vida desta empresa. Não é pouca coisa. Multa que não reverte para reparação da Bacia do rio Doce é uma gota no oceano de necessidades no Tesouro, mas faz muita falta para os afetados pela tragédia, infelizmente.

Seguindo nossa missão de prover conteúdo útil sobre as empresas brasileiras, manteremos você atualizado com novas informações sobre as companhias do mercado extraídas do nosso Banco de Dados SABE. Deixe o seu comentário sobre como você avalia o Caso Samarco.

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Luiz Guilherme Dias é Sócio-Diretor da SABE Consultores, Consultor de Empresas e Conselheiro Certificado.

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