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Stakeholder (Investidores): Qual a sua importância para o sucesso de uma empresa?


LUIZ-GUILHERME-DIAS-e1443731843958Por Luiz Guilherme Dias | Rio, 31/Jan/2017.

 

“As empresas devem fazer uma distinção clara entre os que apostam em suas ações no curto prazo e os investidores de longo prazo, que querem ver o negócio crescer e florescer”

John Mackey e Raj Sisodia – Autores do livro Capitalismo Consciente

Este artigo é o 4º da série sobre “Stakeholders” (clique aqui para ler o 3º da série). Nele damos continuidade ao resumo e adaptação de alguns capítulos do livro “Capitalismo Consciente – Como libertar o espírito heroico dos negócios”, editado pela HSM, que discute o papel e a importância das empresas conscientes, que atuam de maneira a criar valor não só para si mesmas, mas também para seus clientes, colaboradores, fornecedores, investidores, comunidade e meio ambiente ou usando o jargão do momento para seus “stakeholders”.

Para ilustrar de maneira objetiva a importância do Investidor para o sucesso de uma empresa, mostramos a evolução da Distribuição de Valor Adicionado (DVA) por meio da Remuneração de Capital Próprio (Investidores) com base nas informações de nosso Banco de Dados SABE.

Relembrando a teoria contábil, a Demonstração do Valor Adicionado (DVA) tem a função de identificar e divulgar o valor da riqueza gerada por uma entidade e como essa riqueza foi distribuída entre os diversos agentes que contribuíram, direta ou indiretamente, para a sua geração.

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Os valores relativos à remuneração atribuída aos sócios e acionistas (Remuneração de capitais próprios) incluem:

  • Juros sobre o capital próprio (JCP) – inclui os valores pagos ou creditados aos sócios e acionistas por conta do resultado do período, ressalvando-se os valores dos JCP transferidos para conta de reserva de lucros. Devem ser incluídos apenas os valores distribuídos com base no resultado do próprio exercício, desconsiderando-se os dividendos distribuídos com base em lucros acumulados de exercícios anteriores, uma vez que já foram tratados como “lucros retidos” no exercício em que foram gerados;
  • Dividendos – Dividendos pagos ou creditados aos acionistas;
  • Lucros retidos e prejuízos do exercício – incluem os valores relativos ao lucro do exercício destinados às reservas, inclusive os JCP quando tiverem esse tratamento; nos casos de prejuízo, esse valor deve ser incluído com sinal negativo. As quantias destinadas aos sócios e acionistas na forma de JCP, independentemente de serem registrados como passivo (JCP a pagar) ou como reserva de lucros, devem ter o mesmo tratamento dado aos dividendos no que diz respeito ao exercício a que devem ser imputado.

(Fonte: http://bit.ly/2kFJt3N).

No fim de Dez/2016 publicamos um artigo sob o título “Stakeholder (Conceito): Qual a sua importância para o sucesso de uma empresa?” mostramos um quadro dos Demonstrativos de Valor Adicionado (DVAs) de 250 empresas não financeiras em 2015. Do total destas empresas 228 distribuíram R$811,7 bilhões de valor adicionado positivo (criação de valor) e 22 distribuíram R$7,2 bilhões de valor adicionado negativo (destruição de valor). Em números totais a distribuição de valor em 2015 representou R$804,5 bilhões.

 Veja agora o que o nosso Banco de Dados SABE tem a mostrar sobre a DVA para “Investidores” sob a forma de “Remuneração de Capital Próprio” de 250 Empresas (não financeiras) e de 26 Bancos de 2013 a 2015. A DVA para “Investidores” das Empresas cresceu 19,93% de 2013 para 2014 e teve uma violenta queda de -237,70% (!!!) de 2014 para 2015. Por outro lado, a DVA para “Investidores” dos Bancos cresceu 11,19% e 32,16% nos mesmos períodos. Esses números retratam de forma contundente o impacto da recessão econômica na remuneração de capital de acionistas e investidores de Empresas em 2015. Os de Bancos, pelo menos por enquanto, nada têm que reclamar.

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DVA Remuneração de Capital Próprio – Empresas (Consolidados) e Bancos (Individuais) – 2013 a 2015 (R$ Milhões)
Fonte: SABE © Powered by Maestro ©

Em 2015 os 10 maiores valores de DVA para “Investidores” de Empresas totalizaram R$46 bilhões pelas seguintes companhias: Ambev S/A, Itausa, Jbs, Cielo, Telef Brasil, BRF SA, Braskem, Cemig, Tim Part S/A e Sid Nacional. No mesmo ano os 10 menores valores de DVA para “Investidores” de Empresas totalizaram R$118 bilhões negativos pelas seguintes companhias: Vale, Petrobras, Eletrobras, Oi, GOL, Usiminas, Pdg Realt, Bradespar, Invepar e Klabin S/A.

Pelo lado dos Bancos em 2015 os 10 maiores valores de DVA para “Investidores” totalizaram R$67 bilhões (99% do total) pelas seguintes instituições: Itauunibanco, Bradesco, Brasil, Santander BR, BTGP Banco, Banrisul, Daycoval, ABC Brasil, Nord Brasil e Amazônia.

Para John Mackey e Raj Sisodia, autores do livro mencionado na introdução deste artigo, o chamado “capital financeiro” (dinheiro investido nos negócios) desempenha papel fundamental no capitalismo de livre-iniciativa. Para que esse sistema político-econômico evolua com sucesso, os “stakeholders” financeiros devem se tornar mais conscientes, reconectando-se com seu propósito maior.

O capital de terceiros (empréstimos a serem pagos com juros) fornecidos por bancos e outras fontes é essencial, pois ajuda as empresas a crescer sem diluir a participação acionária. O capital próprio (investido na base do risco, em troca de um percentual de participação no negócio) tem valor valor inestimável para companhias crescerem. Sem essas fontes de financiamento, a maioria das empresas não seria capaz de atingir seu pleno potencial e teria muito mais dificuldade para inovar, crescer e criar valor para seus stakeholders.

Entretanto, torna-se importante a distinção clara entre o “capitalismo entre amigos” e o “capitalismo consciente”. A crise financeira de 2008 revelou que a riqueza produzida em Wall Street teve como origem a especulação, a negociação e a “jogatina” de curto prazo e não de investimentos produtivos. Os ganhos foram embolsados por especuladores; os prejuízos, absorvidos pelo Governo e pelos contribuintes. Essa crise resultou em uma série de empresas e entidades financeiras “grandes demais para falir” (“too big to fail”) que acabaram sendo salvas pelo Governo. Centenas de US$ bilhões de impostos foram pagos por contribuintes, corretamente denominados “tax payers”, e desviados para socorrer grandes empresas e bancos. Ficou bem clara a figura do “capitalismo entre amigos” onde o Banco Central (FED) mantendo as taxas de juros artificialmente baixas por anos, permitiu que essas mesmas instituições voltassem a obter lucros extraordinários e praticamente livres de risco.

No capitalismo consciente as empresas se desenvolvem com o capital dos investidores assumindo a responsabilidade ética e fiduciária de ganhar dinheiro para eles. Empresas conscientes se comunicam de maneira consistente deixando claros seus propósitos, valores e estratégias, aumentando a probabilidade de atrair uma legião de acionistas e investidores alinhados com sua visão de negócio. Em tempos difíceis esses financiadores não abandonam a companhia, pois estão sintonizados com seu propósito maior.

Para os autores, a simples ideia de fazer um investimento com a decisão premeditada de encerrá-la parece bastante perniciosa. “Não fazemos plano de fuga dos relacionamentos com o cônjuge, com os filhos ou com os nossos amigos. Não temos uma estratégia de saída com nossos clientes, colaboradores, fornecedores ou comunidades em que vivemos. Por que, então, os investidores deveriam ter?”. Em um mundo ideal os investidores deveriam construir valor com as empresas por muitos anos, indefinidamente.

De forma pragmática, investimento de longo prazo é uma redundância, uma vez que isso é o que o investimento de fato significa. Investimento de curto prazo é uma contradição em termos. O sinônimo para isso, “transação”, tornou-se o grande foco para muitos. As empresas devem fazer uma distinção clara entre os que apostam em suas ações no curto prazo e os investidores de longo prazo, que querem ver o negócio crescer e florescer. Seu nível de compromisso deve ser maior com os parceiros estáveis do que com os especuladores – nada diferente do que você faz em sua vida pessoal, na relação com familiares e amigos e no contato com estranhos.

É claro que os especuladores merecem ser tratados com respeito e integridade, assim como ninguém contesta que eles também têm seus direitos e ajudam a criar valor nos mercados, fornecendo liquidez. Entretanto, é desperdício de tempo tentar desenvolver um relacionamento com alguém que não estará lá quando você mais precisar. Isso vale tanto para as relações pessoais como para as comerciais. Para servir aos acionistas da melhor maneira é necessário ouvir aqueles de longo prazo: os fundadores, os proprietários, as pessoas comprometidas com a construção do empreendimento, e não os negociadores de curto prazo, interessados em fazer lucro rápido.

Finalizando, os autores indagam se empresas de capital aberto podem ser conscientes. Em geral ouvimos que somente negócios próprios ou de pequeno porte podem ser geridos de modo consciente. A partir do momento em que crescem e entram no mercado de ações seria impossível continuar a fazê-lo. Trata-se de uma falácia confrontada pelos vários exemplos de companhias que abriram seu capital no exterior e também aqui no Brasil. O mal-entendido baseia-se na crença que generalizada de que as corporações são todas dedicadas ao único propósito de maximizar os lucros e o valor para o acionista e de que o sistema legal impede que se tente mudar isso. A melhor maneira de otimizar os lucros e o valor em longo prazo para o acionista é criar valor também para os outros stakeholders, simultaneamente.

No início de 2017 publicamos um artigo sob o título “Empresas ‘Campeãs’ são as que oferecem o melhor retorno no longo prazo” onde concluímos que em prazos mais longos empresas identificadas por nós como “campeãs” superaram de longe o Ibovespa, pois o tempo é o “melhor remédio” para corrigir as imperfeições de curto prazo do mercado, além de “respeitar” os ciclos econômicos dos diferentes setores de atividade. Assim, mesmo considerando a recessão econômica dos últimos anos, ficou confirmada a teoria do Prof. Jeremy Siegel, em especial para as companhias resilientes, conscientes de seu propósito maior. Essas empresas evidenciam que os investimentos em ações apresentam retornos superiores às aplicações em renda fixa no longo prazo.

COMENTÁRIOS FINAIS

Mais uma vez as conclusões com as informações obtidas dos DVAs das companhias do nosso Banco de Dados SABE retratam a difícil situação econômico-financeira que as companhias abertas brasileiras, em especial as não financeiras (indústria, comércio e serviços)  vem enfrentando nos últimos anos. A DVA para “Investidores” dessas companhias teve uma violenta queda de -237,70% (!!!) de 2014 para 2015, evidenciando de forma contundente o impacto da recessão econômica na remuneração de capital de acionistas e investidores de Empresas.

Para enfrentar crises, é necessário ter a consciência que o propósito maior de uma empresa inclui a realização de lucros, mas acima de tudo a criação de valor para TODOS os públicos de interesse, principais ou secundários, cuja integração é chave para o sucesso do negócio.

A filosofia de maximização dos lucros em curto prazo e da remuneração pessoal, ignorando todas as outras partes, é um fracasso rematado, que trouxe nefastas consequências para todos nós. O setor financeiro não precisa ser assim, ao contrário, o “stakeholder” capitalista deve ajudar a criar um enorme valor em toda a sociedade. A prosperidade do mundo depende disso.

A SABE Consultores tem o propósito de “organizar informações financeiras sobre as empresas brasileiras e torná-las acessíveis e úteis” e acredita que as empresas conscientes atuam de maneira a criar valor não só para si mesmas, mas também para seus clientes, colaboradores, fornecedores, investidores, comunidade e meio ambiente ou usando o jargão do momento para seus “stakeholders”. Manteremos você atualizado com novas informações extraídas do nosso Banco de Dados SABE.

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Luiz Guilherme Dias é Sócio-Diretor da SABE Consultores, Consultor de Empresas e Conselheiro Certificado.

E-mail: lg.dias@sabe.com.br

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