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Empresas Brasileiras dão mais “cano” em 2015


Por Luiz Guilherme Dias | 15/Dez/2015.

A grave situação política e econômica em que se encontra o nosso país aliada aos efeitos da operação Lava a Jato tem levado muitas empresas a altos níveis de endividamento, como temos enfatizado em nossas recentes publicações.

Um alerta da Agência Fitch (uma das três maiores agências de classificação de risco de crédito), sobre a maior crise de geração de caixa em pelo menos uma década que enfrentam as empresas brasileiras indica que cresce o calote de empresas brasileiras. Um dos fatores que impactaram o aumento das dívidas foi a elevação dos juros do BACEN para conter a inflação: de 2013 para hoje a SELIC subiu quase 97%, de 7,25% para 14,25% (Fonte: O Globo de 12/Dez/2015).

De acordo com dados do Instituto Internacional de Finanças (IIF) em uma análise publicada em Ago/2015 sobre dívidas de países emergentes, o endividamento de empresas brasileiras cresceu rápido e atingiu nível preocupante. Os passivos de empresas em países como China, Cingapura, Turquia, Brasil e Rússia cresceram de 60% para 85% do PIB nos últimos sete anos. A principal causa foi a oportunidade de captação em países desenvolvidos a juros próximos de zero.

Existe forte preocupação no mercado tendo em conta o cenário futuro de baixo crescimento econômico e a perspectiva no curto prazo de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, forçando muitas empresas a terem que reestruturar suas dívidas com taxas mais altas. Além do IIF o Fundo Monetário Internacional (FMI) vem emitindo vários alertas sobre esta delicada questão, em particular sobre a redução da capacidade das companhias brasileiras cumprirem com as obrigações dos serviços de suas dívidas.

Veja agora o que o nosso Banco de Dados SABE tem a revelar sobre a evolução dos endividamentos totais das companhias abertas não-financeiras e sobre os maiores endividamentos de 2012 a 9M2015, com dados de uma amostra de 343 empresas.

Companhias Abertas Não Financeiras – Endividamentos Totais (Individuais) – 2012 a 9M2015

Companhias Abertas Não Financeiras – Endividamentos Totais (Individuais) – 2012 a 9M2015
Fonte: SABE ©

Observando o histórico das dívidas sobre os patrimônios líquidos e sobre os ativos totais das empresas da amostra percebemos com base em 9M2015:

  • de 2014 para 9M2015 a dívida total das empresas aumentou 24%, alcançando mais de R$2,1trilhões;
  • a geração de caixa total medida pelo EBIT caiu 18% do ano passado para 9M2015, e se encontra em nível bem inferior ao dos dois primeiros anos da série;
  • os passivos totais sobre o PL cresceram no período; o índice de 103% em 9M2015 sinaliza que as empresas tomaram emprestado na média R$1,03 para cada R$1,00 investido;
  • os passivos totais sobre o ativo total (AT) também cresceram atingindo 51% em 9M2015.

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Cabe ressaltar que nem todos os passivos são onerosos, ou seja, não são geradores de despesas financeiras como empréstimos/financiamentos e debêntures. Por exemplo, salários e contribuições, impostos, dividendos a pagar, entre outros, são itens do passivo, mas não são geradores de despesas financeiras. Assim, separando-se os passivos totais em passivos que são essencialmente geradores de juros a pagar (empréstimos/financiamentos e debêntures), aquele índice cai substancialmente, caracterizando um valor mais representativo da real condição de endividamento da empresa.

Da mesma forma é importante destacar que a relação entre dividas e patrimônio líquido é determinada por valores contábeis, e não por valores de mercado, o que eleva bastante o índice. O PL de mercado de uma empresa em situações normais é superior ao seu valor contábil.

Companhias Abertas Não Financeiras – 20 Maiores Endividamentos (Consolidados) – 2012 a 9M2015 – Fonte: SABE ©

Companhias Abertas Não Financeiras – 20 Maiores Endividamentos (Consolidados) – 2012 a 9M2015
Fonte: SABE ©

Observando agora a evolução do endividamento total no período de 2012 a 9M2015 das 20 maiores dívidas consolidadas das empresas não financeiras com base em 9M2015:

  • As maiores taxas compostas de crescimentos anuais (CAGR) foram de Jbs, Embraer, Vale, Petrobras, Braskem e Gerdau, variando entre 14% e 33% ao ano;
  • Eletrobras e Cemig tiveram CAGR negativo no período resultante da redução do nível do endividamento em 9M2015;
  • As 20 maiores dívidas representam 74% do total das dívidas da amostra em 9M2015;


Comentários Finais:

Segundo a Fitch, uma “tempestade perfeita” de eventos como demanda fraca, desemprego, inflação alta, juros elevados, real desvalorizado, commodities enfraquecidas e crédito restrito levou o Brasil a encabeçar a lista de calotes de títulos internacionais na América Latina: em 2015 foram 7 “defaults” de empresas brasileiras de um total de 8 em um total de US$4,5bilhões de dívidas, enquanto que em 2014 eram apenas 2 de de um total de 3. Em 2013 o investidor pagava um spread de 1-3% pelo título de dívida de uma empresa com bom perfil de crédito, enquanto que atualmente o spread gira entre 3-6%, aumentando sobremaneira o custo financeiro e restringindo a oferta de crédito.

A agência estima que 1/3 das companhias brasileiras que ela monitora gasta mais de 50% de sua geração de caixa com o serviço da dívida (em 2013 eram 24%). Para a Fitch as empresas que se encontram em situação mais crítica são: ALL, Eletrobras, Gol, Oi e Sid Nacional. (Fonte: O Globo – 12/Dez/2015).

Em resumo, como apontam os dados deste artigo, mais uma vez alertamos sobre a grave situação financeira que o mercado de capitais enfrenta no momento tendo a frente, pelo menos em 2016, um cenário esperado pior.

Seguindo nossa missão de prover conteúdo útil sobre os setores das companhias abertas, manteremos você atualizado com novas informações sobre as companhias do mercado extraídas do nosso Banco de Dados SABE.

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Luiz Guilherme Dias é Sócio-Diretor da SABE Consultores, Consultor de Empresas e Conselheiro Certificado.

faleconosco@sabe.com.br

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