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Eletrobras: Gestão requer coragem para mudar uma cultura secular


LUIZ-GUILHERME-DIAS-e1443731843958Por Luiz Guilherme Dias | Rio, 29/Jun/2017.

 

“De fato, exagerei. As pessoas não são vagabundas”

 Wilson Ferreira JuniorCEO da Eletrobras

Em Mar/2016 publicamos um artigo sob o título “Eletrobras: Prejuízo de R$3,9 bilhões no 1º trimestre de 2016” onde mostramos que de 2011 a 2015 a Eletrobras vinha sofrendo perdas de ativos e patrimônio e ao mesmo tempo aumentando seu endividamento. Com receitas estáveis nesse período, a empresa vinha amargando prejuízo desde 2012 tendo tido elevado crescimento em 2015, atingindo a casa dos R$15 bilhões em perdas. Na comparação do 1T2015 x 1T2016, a empresa manteve as perdas patrimoniais, teve queda de receitas, de geração de caixa e saiu de um lucro de R$1,1 bilhões em 2015 para um prejuízo de R$3,9 bilhões em 2016.

Chamamos a atenção também para o fato que a capacidade geradora da Eletrobras, incluindo metade da potência de Itaipu pertencente ao Brasil, era de 43 MW, correspondentes a 34% do total nacional. A empresa também possuía 50% das linhas de transmissão do país, caracterizando uma holding estatal gigantesca responsável por uma “missão impossível”.

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Atualmente a situação da companhia é bastante diferente tendo à frente, desde Jul/2016, o engenheiro Wilson Ferreira Júnior, ex-CEO da CPFL Energia onde realizou um trabalho de gestão competente. Como noticiado na Exame em 28/Jun/2017, Ferreira enfrenta reclamação de funcionários por falta de diálogo no processo de desligamento de pessoas para reduzir o custo da companhia e torná-la mais produtiva. A empresa pretende reduzir em 6.000 o número de empregados, além do desligamento de outros 6.000 com a venda de suas distribuidoras – prevista para o fim de 2017.

O diálogo entre Ferreira e funcionários ficou mais difícil após a divulgação de um áudio do encontro de Ferreira com sindicalistas na semana de 19/Jun/2017. No áudio, o executivo chamou parte dos funcionários de “inúteis” e “vagabundos” para defender a necessidade das demissões. “São 40% da Eletrobrás. 40% de cara que é inútil, não serve para nada, ganhando uma gratificação, um telefone, uma vaga de garagem, uma secretária”, disse o engenheiro. A estatal é uma das muitas no país que sofre com o loteamento político de seus cargos. Em um comunicado interno, Ferreira pediu desculpas pelo ocorrido e reforçou a necessidade de mudanças da empresa, exibindo gráficos e revelando os números da empresa. O plano de demissão continua e os funcionários da estatal enfrentam o presidente Wilson Ferreira com uma greve de 48 horas iniciando em 28/Jun/2017.

Como se isso não bastasse a Eletrobras enfrenta outro desafio de natureza externa: o Conselho de Recursos da CVM, o chamado Conselhinho, se reúne para julgar a condenação da União por abuso de poder em sua controlada Eletrobras, julgado em Mai/ 2015. O caso estabeleceu uma multa de R$500.000 à União – valor máximo possível na época – por entender que houve interesse político e a União não votou no melhor interesse da empresa em assembleia de acionistas que tratou da renovação das concessões do setor elétrico em 2012. Na época, o governo Dilma ofereceu às empresas de geração e transmissão de energia a renovação automática de concessões que venceriam em 2017. Em troca, determinou a redução imediata das tarifas como parte de um pacote do governo. A redução tarifária acarretou em prejuízo bilionário para a Eletrobras e outras estatais. (Fonte: Exame).

Veja agora o que o nosso Banco de Dados SABE tem a mostrar no momento sobre a Eletrobras: “Radar de Desempenho Econômico-Financeiro de 2012 a 2016, incluindo a comparação 1T2016 X 1T2017” e o desempenho em bolsa das ações ELET3 (ELETROBRAS ON) nos últimos 5 anos.

Radar de Desempenho Econômico-Financeiro da Eletrobras (Consolidado)Fonte: SABE ©

Radar de Desempenho Econômico-Financeiro da Eletrobras (Consolidado)
Fonte: SABE ©

De 2012 a 2016 a Eletrobras teve queda de patrimônio e ao mesmo tempo aumentou seu endividamento que alcançou o patamar de 5,99x na relação Dívida Líquida/EBITDA. Em 2016 as receitas líquidas cresceram de forma expressiva, assim como o resultado saiu do vermelho após quatro anos, devido aos motivos já apresentados anteriormente. Mesmo com esse quadro de crescimento fraco a companhia conseguiu aumentar a distribuição de valor para seus stakeholders, entregando quase R$47 bilhões em 2016.

Na comparação do 1T2016 x 1T2017, a empresa apresentou um desempenho melhor com aumento de patrimônio, de receitas, de geração de caixa e resultado líquido, revertendo o prejuízo do 1T2016. Por outro lado, a empresa continua com uma relação Dívida Líquida/EBITDA muito elevada, na casa de 6,37x. No último trimestre a distribuição de valor da Eletrobras mais que dobrou permitindo a companhia entregar quase R$9 bilhões a seus stakeholders.

Veja a seguir como foi o desempenho ações ELET3 (ELETROBRAS ON).

Evolução Trimestral da Ação ELET3 (ELETROBRAS ON)Fonte: APLIGRAF – Elaboração: SABE ©

Evolução Trimestral da Ação ELET3 (ELETROBRAS ON)
Fonte: APLIGRAF – Elaboração: SABE ©

De 26/Jun/2012 a 27/Jun/2017 a ação ELET3 obteve uma desvalorização de 3%. A cotação do papel saiu de R$12,48 e atingiu R$12,10 no final do período (a cotação máxima foi de R$22,81 em 29/Dez/2016 e a mínima de R$4,40 em 28/Jun/2013). No mesmo intervalo de tempo o Ibovespa teve um aumento de 13%.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

No setor de Energia Elétrica das companhias da bolsa, em 2016 a Eletrobras, dentre 49 empresas, foi a líder em receitas com 25% de market-share (R$61 bilhões, crescimento de 86%) e 2ª colocada em lucros (R$3,5 bilhões) revertendo o elevado prejuízo de 2015 (R$15 bilhões), atrás de Trans Paulista (lucro de R$5 bilhões). O desempenho da Eletrobras foi extraordinário em grande parte fruto de indenizações pagas a empresas de geração e transmissão que aceitaram renovar concessões por mais 30 anos.

Em 27/Jun/2017 a Eletrobras divulgou um Comunicado ao Mercado esclarecendo dentre outras medidas que o Plano de Aposentadoria Extraordinária (“PAE”), o Plano de Demissão Voluntário Extraordinário (“PDVE”), a implantação do Centro de Serviços Compartilhados (“CSC”), a redução de custos administrativos e a redução de investimentos, privatização das Distribuidoras e a venda de participação em SPE´s são iniciativas das estratégias de “Excelência Operacional” e de “Disciplina Financeira”, a fim de atingir a eficiência operacional e reduzir a alavancagem financeira, previstas no Plano Diretor de Negócios e Gestão (“PDNG”) 2017-2021. (Fonte: Empresa).

O julgamento da CVM acontece em um momento emblemático para a companhia, que vem tentando se livrar das interferências políticas desde que o engenheiro Wilson Ferreira assumiu o comando da estatal, em Jul/2017. A gestão atual da companhia requer coragem para implementar inúmeras mudanças, em especial a de cultura de empresa estatal que sofre pressões de natureza política prejudicando o interesse dos seus stakeholders, em particular os acionistas minoritários que investiram recursos na companhia.

O fracasso de mudanças como as que estão sendo feitas acarretará perdas para todos os stakeholders, inclusive os funcionários que deixarão a empresa. Mudanças de cultura levam tempo para serem consolidadas, mas às vezes surpreendem como mostra o vídeo a seguir, publicado em redes sociais:

A SABE Consultores tem a missão de “organizar informações financeiras sobre as empresas brasileiras e torná-las acessíveis e úteis” e acredita que as empresas conscientes atuam de maneira a criar valor não só para si mesmas, mas também para seus clientes, colaboradores, fornecedores, investidores, comunidade e meio ambiente ou usando o jargão do momento para seus “stakeholders”. Manteremos você atualizado com novas informações extraídas do nosso Banco de Dados SABE.

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Luiz Guilherme Dias é Sócio-Diretor da SABE Consultores, Consultor de Empresas e Conselheiro Certificado.

Fale com o autor: lg.dias@sabe.com.br

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