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A maldição do ‘capitalismo entre amigos’


LUIZ-GUILHERME-DIAS-e1443731843958Por Luiz Guilherme Dias | Rio, 24/Mai/2017.

 

“No ‘capitalismo entre amigos’, empresários e representantes da esfera pública estabelecem uma relação de compadrio movida a interesses particulares, em detrimento do bem-estar de muitos”.

John Mackey e Raj Sisodia – Autores do livro “Capitalismo Consciente” – Editora HSM

No início de 2017 publicamos diversos artigos resumindo trechos do livro “Capitalismo Consciente – Como libertar o espírito heroico dos negócios”, editado pela HSM, que discute o papel e a importância das “empresas conscientes”, que atuam de maneira a criar valor não só para si mesmas, mas também para seus clientes, colaboradores, fornecedores, investidores, comunidade e meio ambiente ou usando o jargão importado: para seus “stakeholders”. Neste artigo retomamos o tema agora sob a forma do “capitalismo entre amigos” que corrói e destrói valores e princípios do capitalismo consciente, resumindo alguns trechos da obra literária mencionada.

Há cerca de um ano o comando do governo federal brasileiro trocou de mãos. Embora a contragosto de parte da população, a presidente Dilma Roussef ficou impedida de administrar o país sendo obrigada pelo Congresso a “passar o bastão” para o vice-presidente Michel Temer. Naquele momento o país viveu a esperança de novos tempos que aos poucos, nesse rápido intervalo de tempo, foram se materializando, principalmente na área econômica, pela sua elevada fragilidade até então: equipe técnica de alto nível nos postos chave da administração pública e grandes estatais, medidas de corte de gastos públicos, queda da taxa de juros, controle da inflação, sinais de revitalização da atividade econômica e até mesmo, mais recentemente, um “suspiro” na abertura de novas vagas para os trabalhadores.

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Talvez, para consolidar a resiliência do nosso querido Brasil, todos esses avanços não foram suficientes. Diz a canção popular que “tristeza não tem fim, felicidade sim”, prenunciando o “balde de água fria” derramado sobre a sociedade brasileira no fim da noite do dia 17/Mai passado, provocado por um encontro às “escuras” do presidente Michel Temer, com o empresário Joesley Batista do Grupo JBS.

A figura abaixo ilustra o tamanho gigantesco desse Grupo empresarial controlado pelo Holding J&F Investimentos:

Infográfico das Empresas do Grupo J&F – Fonte: Internet

Infográfico das Empresas do Grupo J&F – Fonte: Internet

O Grupo J&F possui oito diferentes subgrupos de negócios, alguns deles com várias unidades de negócios e marcas distintas. Observando exclusivamente a JBS constatamos o gigantismo do Grupo:

  • uma das maiores indústrias de alimentos do mundo com operações de bovinos nos EUA, Austrália e Canadá, suínos e aves nos EUA, México e Porto Rico;
  • atuação em 22 países de cinco continentes (entre plataformas de produção e escritórios) atendendo mais de 300 mil clientes em mais de 150 nações;
  • mais de 216.000 colaboradores ao redor do mundo e 340 unidades, entre fábricas e escritórios comerciais;
  • uma das principais doadoras de recursos para as campanhas eleitorais do Brasil: nas campanhas de 2002 a 2010 a JBS doou cerca de R$105 milhões e na de 2014 doou R$ 392 milhões para candidatos de pelo menos dezesseis partidos políticos do Brasil. Ao todo foram 1.829 políticos “comprados”;
  • dívida líquida de R$68 bilhões e sua relação com o EBITDA anualizado de 7,9x, de acordo com o balanço do 1T2017.

O gráfico abaixo mostra a evolução violenta das receitas líquidas da JBS de 2006 a 2016, medida pela taxa anual composta de crescimento (CAGR) de 39,72% ao ano. Observe que os resultados líquidos não acompanharam o crescimento das receitas tendo a empresa apresentado prejuízos em 2007, 2010 e 2011.

Evolução de Receitas/Resultados da JBS desde 2006 - R$Milhões (Consolidado) – Moeda da ÉpocaFonte: SABE © powered by MAESTRO

Evolução de Receitas/Resultados da JBS desde 2006 – R$Milhões (Consolidado) – Moeda da Época
Fonte: SABE © powered by MAESTRO

Em 12/Mai/ 2017, a Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Bullish, que investigou fraudes em aportes concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da subsidiária BNESPar, à JBS. Os aportes teriam sido realizados após a contratação de empresa de consultoria ligada ao ex-parlamentar Antonio Palocci. Entre os alvos dos mandados estavam Luciano Coutinho, que presidiu o banco de fomento entre 2007 e 2016, e os irmãos Joesley e Wesley Batista, que ficam à frente das empresas do Grupo. Joesley Batista, no entanto, está em Nova York, como informa a coluna do Lauro Jardim do O Globo. Os aportes teriam sido feitos a partir de Jun/2007 e utilizados para aquisição de outras empresas no ramo de frigoríficos, no valor de R$ 8,1 bilhões! A PF encontrou indícios que as operações foram executadas sem exigência de garantias e com a dispensa indevida de prêmio contratualmente previsto, o que teria gerado um prejuízo de aproximadamente R$ 1,2 bilhão aos cofres públicos!

Em 17/Mai/2017, a área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) calculou em R$ 711,3 milhões o prejuízo que o BNDES teve com operações de compra de ações e debêntures (títulos de dívida) do grupo JBS. Os auditores chegaram a afirmar que houve “cessão graciosa de dinheiro público” para a empresa. O material foi um dos elementos que levaram à Operação Bullish. Os técnicos do TCU avaliam que o BNDES deixou de cobrar recursos a que tinha direito, não fiscalizou a aplicação do dinheiro aportado e nem levou em conta o alcance social do resultado das operações realizadas com o grupo. (Fonte: Wikipédia).

Por outro lado, o “Sr. Mercado” não perdoou os movimentos de elevada especulação da companhia na bolsa criando altas (ou baixas) artificiais: a ação JBSS3 (JBS ON) praticamente “derreteu” no pregão de 22/Mai/2017, despencando 31,3% para R$5,98 e o valor de mercado da JBS caiu quase 50% desde o início da Operação “Carne Fraca” em 17/Mar/2017. Tudo isto sem falar no impacto de imagem negativa e a consequente perda de reputação por conta da difusão de notícias nas redes sociais convocando os consumidores a evitar o consumo dos produtos do Grupo J&F, agora “velho” conhecido do grande público.

Segundo os autores Mackey e Sisodia, o verdadeiro capitalismo de livre iniciativa impõe às empresas uma responsabilidade clara e uma disciplina intensa. Deve-se a essa forma de capitalismo a criação por mais de um século de uma ampla e próspera classe média nos Estados Unidos, demonstrando para o mundo que esse sistema pode oferecer inúmeros benefícios para toda a humanidade e desmentindo a crença que o capitalismo de livre iniciativa concentra a riqueza nas mãos de poucos privilegiados, em detrimento dos demais.

Reforçam os autores: com o aumento do tamanho dos governos, surgiu uma variação mutante do capitalismo estimulada por organizações e indivíduos incapazes de competir no mercado por meio de da criação de valor real e da conquista e do carinho e da fidelidade dos “stakeholders”. Este sim concentra riqueza, pois a prosperidade é resultante da manipulação do poder do governo em benefício do próprio enriquecimento. Ouso dizer que essa prática “vem de longe” desde os tempos de Karl Marx.

Nessa modalidade de “capitalismo entre amigos”, empresários e servidores públicos estabelecem uma relação obscura de compadrio movida a interesses particulares, contrários ao bem-estar de muitos. Dizem os autores: enquanto o capitalismo de livre iniciativa é inerentemente virtuoso e essencialmente necessário para a democracia e a prosperidade, o capitalismo de compadrio é antiético por definição e constitui grave ameaça à liberdade e ao bem-estar. “É uma pena que o atual sistema político-econômico esteja corrompendo muitos empresários, que ingressam relutantes na lógica do ‘capitalismo entre amigos’ por uma questão de sobrevivência”, assinalam Mackey e Sisodia.

Concluindo, precisamos descobrir como resgatar aquilo que o capitalismo de livre-iniciativa sempre foi: o mais poderoso e criativo sistema de cooperação social e progresso humano jamais concebido. Se não formos bem-sucedidos nessa mudança, corremos os riscos do crescimento contínuo de governos cada vez mais coercitivos, da cooptação das empresas ao “capitalismo entre amigos” e do consequente prejuízo que isso causa à liberdade e à prosperidade.

O Brasil levou um ano para resgatar os fundamentos econômicos que merece ter: redução drástica do risco-país (282 pontos-base em 19/Mai/2017), Selic em 11,25% (até uma semana atrás projetada para 8% em Dez/2017), inflação medida pelo IPCA abaixo do centro da meta de 4,5%, dólar no patamar de R$3,10; bolsa na faixa de em 68.000 pontos na véspera do fatídico encontro Temer-Joesley, saldo de vagas de emprego positivo (60.000 em Abr/2017). O desafio daqui para frente é a continuidade da política econômica e a aprovação das reformas trabalhista e da previdência.

Temos profunda convicção que empresas conscientes e bem administradas são (e sempre serão) a força mais poderosa para criar as condições para transformar nosso país em uma economia saudável. Das 340 empresas listadas em Bolsa que acompanhamos vislumbramos algumas, em torno de 50, que seguem os princípios de um capitalismo consciente e que vieram para ficar. Se o Governo “não atrapalhar” esse número pode dobrar em pouco tempo, criando uma onda positiva para os negócios no Brasil. Vida longa para as empresas brasileiras conscientes!

A SABE Consultores tem a missão de “organizar informações financeiras sobre as empresas brasileiras e torná-las acessíveis e úteis” e acredita que as empresas conscientes atuam de maneira a criar valor não só para si mesmas, mas também para seus clientes, colaboradores, fornecedores, investidores, comunidade e meio ambiente ou usando o jargão do momento para seus “stakeholders”. Manteremos você atualizado com novas informações extraídas do nosso Banco de Dados SABE.

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Luiz Guilherme Dias é Sócio-Diretor da SABE Consultores, Consultor de Empresas e Conselheiro Certificado.

E-mail: lg.dias@sabe.com.br

 

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